segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Eu:Maria

Maria se perdeu no horizonte
Se desfez do que a prendeu
No alvorecer de novos sonhos
Seguiu o rastro do seu eu

De longe a observava
Era incompreensível entender
Por que rumava para tão longe,
Se aqui ela podia viver?

Mas não existem razões               
Mudamos mesmo sem querer
Por mais que uma parte não queira
Mais de um constitui um ser

Foram tortuosos caminhos
Que a fez descobrir
Que na vida não se é mero personagem
Do que se pretendia possuir

No seu íntimo sentia saudade
E pedia a Deus para esquecer
Ao mesmo tempo em que escrevia esta façanha
Lembrava-se do que pretendia subverter

É que parte de Maria sentiu saudade
Do seu eu que em mim se escondeu

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Não define


É fato que todos vivem a eterna busca: encontrar-se em alguém que possa preencher os espaços mais inabitáveis do coração. E esta é a pessoa idealizada para permanecer durante toda a nossa vida, que nos realize enquanto mortais, que nos traga a felicidade plena. Frustrante é quando despertamos e vemos que ao nosso redor não existem contos de fada, que aquele encontro que você esperou a vida toda não duraria toda a eternidade, são apenas frações de segundo. Num piscar e abrir dos olhos podemos ser outra pessoa, um completo estranho andando por entre a gente em tão curto espaço de tempo. Tudo é tão falho, nossa essência tão comum, que o ser mais que especial é como qualquer outra pessoa: repleta de erros e defeitos(Bingo!). Essa busca do ser realizado é tão medíocre quando se tem um coração insaciável, não sei quem disse que ele deveria bater involuntariamente, vai ver que é por isso que vive tão cheio de si. Já me cansa tentar entender todo este nó, para que tudo isso? Para que toda esta idealização em cima do que não tem forma, nem espaço, nem tempo?  O que deveria ser mágico, permanece tão mecânico. É tudo tão igual, repetitivo, démodé. Talvez, quando o corpo conseguir falar a linguagem da alma em essência, o sentido desta busca se torne mais compreensível. Até lá eu espero e pago pra ver.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Náufrago


Estreito caminho de rua desfeita
Por entre as pedras que escalei
Sem rumo ou quase sem destino
No mesmo vazio me recriei

Desenhei um sonho um tanto imperfeito
Das vertigens de um passado adormecido
Abracei minha saudade sem demora
E com ela flutuei para meu abrigo

Entre oceanos esvaídos
Encontrei o coração
dos velhos barcos naufragados
Nas facetas de um antigo livro
Propositalmente enterrado

Havia lembranças
Havia memórias
Havia o sonho esquecido
Na ferrugem do tempo
Que tudo apaga

O navio aos poucos se distanciava
Lá se ia,
Lá se via,
O maior de todos os adeuses

Era o doce,
Era o amargo,
Navio que viajei

Segui pela costa,
De costas pra mim,
E nem pra trás mais olhei

Ele se foi sem se despedir
E sobre seus retalhos naufraguei


terça-feira, 31 de maio de 2011

Des-encontro

Dois rios
Dois estranhos
Duas nascentes
Diferentes caminhos

Águas tão próximas
Não se olham
Não se sentem
Não se tocam

Até que se esbarram
Num braço qualquer
Na leveza da correnteza
Na mistura da essência

Olhares que se beijaram
No acaso,
Na calma

Mal perceberam
Se envolveram
Como deveria ser
No desaparecer da alma
No destino ou querer

São leitos das mesmas águas
Que passam
Que correm
Não param

Mas sem querer
Se separam
Entre afluentes inertes

Novamente perdidos
Entre outras vertentes
De águas claras

Desejando um novo reencontro
Num caminho sem volta
Uma busca cansativa,
Ilusória

Até chegarem à foz,
Da vida ou da história,
Já sem esperanças
No alvorecer do fim

E de repente
Novo desfecho
Eu vi

Eram dois rios
Que desaguavam
No mesmo mar

sábado, 23 de abril de 2011

Sô-nê-tu

É um torto soneto
Em versos inconstantes
Com bem menos superego
Na fluidez do ide

Não se trata de rima rica
Tampouco rima pobre
Só o que vem na mente
Talvez você não goste

Os quartetos já passaram
Chega o meio-fim da leitura
E você continua aqui

Não há nada de diferente
Entre o último e o primeiro verso
Só um terceto meio torto no fim.

domingo, 17 de abril de 2011

Ontem

Passado,
Tão perto
E tão vivo

Presente,
Tão distante
Insignificante
Não sinto

Saudade,
Vestígios de você
Que em mim ficou

domingo, 10 de abril de 2011

Memory

Estava transitando
Entre pensamentos antigos
Saboreando experiências vividas
Contidas num sentimento de nostalgia

Durante este passeio
Reencontrei diversos personagens
Uns faziam parte de grandes livros
Outros apenas de alguns capítulos
Tão breves quanto o tempo que dividimos

Entre tantos
Aquele me chamou atenção
Estava velho e empoeirado
Jogado no chão

Não resisti,
Quando o abri
Enorme emoção tomou conta de mim
Alguém em especial estava ali
Acompanhado de melodias íntimas
Repleto de planos inacabados

Foi bom reviver aquilo
Abraçar minha saudade
Sentir o cheiro daquele perfume
Na envoltura do abraço apertado

Senti um aperto no peito
Uma vontade de chorar
O desejo de permanecer no ontem
Queria voltar

Até que a razão se exaltou
Mostrando-me que nada mudaria
O vazio que me acompanhou
Ali permaneceria

Como pode o tempo ser tão cruel?
A ponto de dar e depois tomar
Pessoas importantes da nossa vida
Como cobrança de um empréstimo
Sem direito a retorcidas

E como pode ele ser tão contrário a si?
Pois nada melhor que o tempo
Parar curar a dor sofrida
E depois como padecimento
Nos empresta outros personagens
Que acabam regenerando a vida

E é só por isso
Que aqueles livros estão lá
Apenas para te recordar

Talvez um dia
Eu seja só mais um personagem
Da história que você vai contar

sábado, 2 de abril de 2011

Hoje,

Um dia diferente
Nada acontece
E eu?
Ah, já não ligo

Finjo que não percebo
Que esqueço
Não lembro?
Engano

Só não houvera o passado,
Nem o começo,
Tampouco o presente

Tão doce
Amargo
Indiferente

As horas passaram
E apenas se foram
Levando a beleza
Do que se foi

Não vale chorar a dor
O sofrimento é tão normal
Cansei e ponto final

Tentar mudar o sentido do fim
Procurar uma saída, tolice
Seria só mais uma tentativa
Até chegar novamente à desilusão

São apenas portas fechadas
Entende?
Tempo esgotado,
Passo errado,
Um sacrifício em vão

Até tive medo
De perder o que comigo ficou
Quando ainda existia
Uma saudade presente

E de repente já não era nada
Só pedaços de papéis
Uma sutíl indiferença
Que me matara

E hoje,
Ando suportando a convivência
Deste amargo sentimento
Que fere por dentro
Apoderando-se da alma
Dilacerando o peito aberto

E por favor,
Não me venha com essa de amor.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Palavras Perdidas

O papel
A caneta
E a saudade

Tentando te decifrar
Te guardar
Manter
Em qualquer outro lugar
Evadido da minha memória

Algumas linhas
E este rabisco
Foi o que restou
De um tempo
Onde entre eu e você
Apenas o desejo

Sem testemunhas
No relento da noite
Acolhedora e serena
Repousei minh’alma

Nos teus braços
Adormeci
Sonhei
Te amei
Não acordei

Recolhi
O pouco que sobrou
Cristalizei
A lembrança de um tempo bom

Fiz
Do teu sorriso a moldura
De você minha eterna pintura

Inacabável
Inalterável
Empoeirada

segunda-feira, 28 de março de 2011

... Pois a saudade é a mesma

Não 
Não me pergunte como entendê-la
Como decifrá-la, nem como aceitá-la

Não venha me dizer que devo esquecer
Fingir que o tempo irá encarecer
de apagar tudo que se foi tão de repente,
Sem ao menos uma única explicação

Não vou sorrir para o fim que ficou em mim
Para o ontem que insiste em existir
Para a vida que ironicamente se faz seguir
Neste sarcasmo que me nauseia

E por favor,
Não tente me confortar com essas palavras clichês
Inutilidade pré-avisada
É apenas mais um balbucio de piegas

O peso da dor permanecerá
No mesmo vazio incomensurável
E nada, nem ninguém, mudará...

Something

Sou uma epifânica
Um fluxo de consciência
Um complexo mundo
Repleto de contradições

Sou a vontade de viver
A fraqueza do meu ser
Amante da escrita
Amiga da inconsciência

Sou a caneta e o papel do verso
E o meu mundo ao reverso